CartilhAA: Oi, já ouviu o seu lado AA hoje?

Texto longo, de novo, sim.

Não consigo falar de algo e não dar referências, profundidade, reflexões. Dizendo só para quem quiser parar por aqui e não reclamar depois, mas enfim, vamos lá. Há umas semanas recebi um texto do ótimo Not Your Jukebox do Sean Ray, este aqui, onde ele fala (em meio a um assunto que não cabe no texto mas vale conferir, e ainda traduzo hora dessas por bom tom) sobre uma entre muitas coisas das quais não podíamos reclamar antigamente: quem comprava discos não podia (e logisticamente, especialmente no Brasil, era impossível) se dar o luxo de trocar o case toda semana, como se arruma uma mala para viagem. Quando se conseguia comprar uma dúzia de discos por mês, as especulações sobre sua vida financeira aumentavam consideravelmente. Mais que isso era crème de la crème do profissionalismo como DJ e isso causava em mim, mere mortal, uma invejinha branca acompanhada de um sonho juvenil de praticar muito (quando tinha como) pra me tornar uma mega DJ e poder usar o dinheiro do cache pra comprar discos e mais discos. Sim, considerando ainda ter uma segunda profissão, como a maioria até hoje, e bem como aconteceu de fato, descartando a longo prazo o sonho de me formar musicista/compositora com especialização em produção musical e engenharia eletroacústica. Sweet dreams are made of these.
Mas ainda assim, top DJs não iam mudando o case a cada onda de biscoitinhos novos chegados a galope via correio, importadoras ou lojas da Galeria Presidente ou Ouro Fino. Sempre tinha aquele disco que fazia aniversário na caixinha metálica, eventualmente um verdadeiro repertório de tour. Comumente para muitos, faltava espaço para inserir “tanta novidade” (que na época seriam o que, umas 40 ótimas produções de determinado gênero) em um único, visto que sempre tem aquelas outras 20 que você coloca alí porque estava louco pra tocar, mas deixa na manga, para quando a pista “exigisse” isso, clima, público. Aí você pode pensar “tanto faz, na era digital você continua fazendo isso”. Assim, já sendo um pouco presunçosa: sei não se você entendeu o ponto da conversa, então vou continuar. Continuamos “separando o case”, mas nos habituamos (quer dizer, falem por vocês, sinceramente, eu não) a só tocar o “lado A”. Aquela faixa super bacana, principal, que já sabemos que vai funcionar na pista (ou não). Esquemos de procurar, eventualmente escavar o AA, aquela sutil peculiaridade que pode funcionar tanto como gancho para um momento de êxtase, ou como uma carta mais profunda, para aquele momento mais aural da pista. E não falo de ter hits e bombs separadas, falo daquela música peculiar, que você não sabe muito o porquê colocou no case, talvez por gostar, talvez por não saber o que pode encontrar, talvez por querer criar um clima totalmente novo. Outra coisa que parece que o acervo digital fez muitos esquecerem é que música não tem prazo de validade. E não, não importa o gênero (musical, não sexual… digo, o sexual também tanto faz), nem a chatice sua ou de mais ninguém. Há quanto tempo você não para por aí e reserva um dia não para ouvir o soundcloud, o beatport, o traxsource, o zippyshare (ah, nossa, estou sendo politicamente incorreta); e do contrário, para e ouve seu iPod, seu HD, seu case?
OK, desculpem-me desde já srs. e sras. “memória eidética”, vocês lembram de tudo, sabem tudo e são donos da cocada. Tô falando de você, pessoa que tem 15, 30, 50 mil músicas no HD e acha bonito falar isso, mas não decoram até o estalinho nos 14 segundos de tal música. Quanto tempo você não tem a sensação de levar uma imensa surpresa ao reouvir algo, ou a descobrir um novo jeito de mesclar duas músicas que não te passavam pela cabeça misturar há uns anos, por conta da verve daquela época, inexperiência ou até mesmo fatores tecnológicos? Ou mesmo aquela “caraca, não lembro disso” ou “eu tenho isso? sério?”, e nisso, donos da verdade, os desmemoriados levam vantagem sobre vocês. Isso os old-school, os vinileiros, realmente podem fazer com mais frequência, advindo do prazer do zêlo, de cuidar de cada vinil, cada capa, poder até esquecer coisas com o tempo, mas retomá-las sem medo de ser velho. Pela qualidade, mas também pelo prazer de redescobrir. Audiófilos ferrenhos, ainda que digitais, também herdam este zêlo, mas já notei que muitos deles são assíduos amantes do vinil. E não é como se tudo que fosse parar no vinil fosse 100% bom, embora, hoje, uma frase de Roy Apron a.k.a. Boy 8-bit resuma o vinil na atualidade: “A música em vinil é melhor porque é prensada”. Se não deu pra entender a genialidade da frase, eu explico: prensa é uma vez só, depois que fez o plate com a master, a menos que você tenha dinheiro a rodo, não tem outra. Muito cuidado, muito critério, muito trabalho, muita grana. Ninguém vai botar música fácil em vinil só pra tocar (salvo se for um dubplate, um processo menos rigoroso e justamente para prensar um “pra tocar”, e mesmo assim tem que ser algo muito credível pra pagar). A discussão vinil vs qualquer-outra-mídia está fora de pauta aqui, isto foi um gancho e um vocativo pois, certamente, quem é do vinil já está entendendo meu ponto. Voltando…
Com o volume de novas produções, não é só a qualidade ou o critério que estão comprometidos, é a validade da música. Criou-se um estigma sobre “renovar case”, seja por 100 faixas novas relativamente interessantes mensais, ou por fazer edit/bootleg/remix para sempre ampliar o cardápio. E não, não é nada contra isso, tanto que tiro por exemplo para falar deste novo hábito o que ouço de amigos respeitáveis, nada contra eles ou contra ninguém. Mas qual o problema de tocar original? E sinceramente, qual a probabilidade de você já ter tocado diversas da faixas que adquiriu na última meia década ou mais? E a possibilidade de lembrar? Será mesmo que “renovar o case” significa, necessariamente, encher-se de novidades? Não é uma defesa do velho, simplesmente: é também a defesa do critério, da acuracidade na hora de escolher coisas novas, em manter-se fiel à sua música, às suas influências. Até mesmo excelentes artistas de quem gosto muito (sem citar nomes) vêm cometendo este deslize e, consequentemente, perdendo muito da originalidade, da sonoridade singular que a princípio me atraiu. Mudar gêneros não é um monstro, eu particularmente me adapto porque a música continua se adaptando e até os artistas pelos quais me apaixonei, ainda na efervescência do fidget e do glitch, hoje reverteram muito da essência para o tech house e o jackin, ou foram para novas direções do electro. Chamem-me saudosista, hipster, o que seja, eu prefiro aqueles, porque é minha panela, minha sonoridade. Se precisar tocar música velha toco, se surgir coisa nova, adiciono. Não quer dizer que não gosto de outros gêneros, só que sei muito bem o que gosto. E nem que não vou tocar outros, só que sei muito bem o que procuro, e se precisar procurar, olho primeiro pro HD e depois para o atual, porque isso possibilita novas fusões, encontrar raízes que sequer imaginei. Ver que aquilo que era alternativo há uns anos, hoje pode ser considerado influencial. E olhar para o novo como complemento, ou desdobramento, da sua arte. Aí Marky bota na mesa o que sabemos, mas tivemos medo e complexo de superioridade para falar: club hoje olha quantas pessoas você vai botar, nunca o som que vai oferecer. A ponto de botar um cara acima de qualquer suspeita como o Dennis Ferrer para fora da cabine por não tocar algo “comercial demais” (Lembra não, porra?).
Mas e você? O que você está fazendo musicalmente pra virar a mesa? Comercial não precisar ser o hit do momento, pode ser uma acapella bem usada, um clássico do que você se propõe. E underground não precisa ser só conceito, e sim uma boa escolha, mesmo com artistas de sonoridade mais fácil. Não tenha medo de resgatar, de virar do avesso, de reavaliar. Tenha medo de perder a sua essência nesta avalanche de consumo, pois não é a música comercial que é “mainstream”, e sim o monte de regras que cagam na sua cabeça para que você só toque coisas específicas. Tenha medo de nunca virar o disco, nunca olhar a contra-capa, nunca clicar nos relacionados. Não tenha medo de ouvir o AA.

CartilhAA: The Seatbelts, convergência cultural, cultura do nicho segundo Sigmund Freud e o que você tem a ver com tudo isso

No meu texto inaugural (só que ao contrário), em meio à diversão de escrever uma carta pedagógica e tentar fazer melhor do que isso e botar em prática, uma das coisas que procurei trabalhar foi uma ideia de convergência. Não é um termo novo e nem “in”, diria ser 2006 demais, mas resumindo a pauta toda, esta é a ideia. Em meio a letras, e faixas, e notas, periga alguém ter notado que me repito em um momento, com um projeto ilustremente desconhecido de boa parte do cenário eletrônico – Por não ser, mas por outro lado, por uma culpa endêmica em nossa cultura musical: os nichos. E ainda por outro lado (pois, nos habituamos também a achar que tudo se resume a um lado e outro, esquerda e direita, dentro e fora, certo e errado; quando a vida é cheia de tríades e polígonos e sefirotes), tal projeto é tão incluso em tantas variações, no complexo que por simplicidade chamamos de música, que seria injusto referir-se como “experimental”, ou “neoclássico”, ou “contemporary nu jazz/classic”, ou qualquer rótulo que o iTunes pudesse colocar, visto que mecanizamos a música (digitalizar é diferente de mecanizar, renderia um outro ensaio, só que não). Bom, vê-se minha suspicção para falar sobre The Seatbelts e sua headmaster, a virtuosa maestrina/compositora/pianista Yoko Kanno, uma das referências máximas pessoais quando se trata de musicalidade. Mas gostaria de falar sobre algo além.

Antes, e antes de mais nada, quem diabos é Yoko Kanno né? A Wikipedia responderia que é uma compositora de 49 anos conhecida principalmente pelo trabalho com trilhas para animes e séries, nascida na província de Miyagi, no Japão. Too fukken obvious que com esse nome ela seja japonesa, então deixe-me trilhar por mim mesma. Yoko não é uma simples sound composer: ela é uma das mais brilhantes e agraciadas sound composers da história da animação moderna, além de possuir reconhecimento no meio erudito por seus trabalhos como concertista. Não bastante, reúne sob o nome The Seatbelts uma extensa gama de composições realmente ecléticas, utilizadas em diversas mídias ao longo dos anos, tendo trabalhado não só o clássico, mas o J-pop e muito além, a world music como um todo. Conhecidíssima por singularidades como a constante bastardização de suas canções (utilizando termos únicos de diversas línguas para criar sonoridade e contextos inéditos, tanto líricos quanto musicais) e pelo despudor de utilizar-se de elementos de diversos estilos e gêneros, Yoko é tida constantemente no meio da game music e da música pop japonesa como um dos maiores gênios vivos da atualidade. São inúmeros seus trabalhos, sendo mais frequentemente reconhecida por trabalhos em animações mais “mainstream”, principalmente Vision of Escaflowne, Cowboy Bebop e Wolf’s Rain. Também contribuiu com o clássico dos games Romance of the Three Kingdoms, e recentemente compôs uma trilha que literalmente salvou um jogo pífio, a da segunda versão do hit MMO Ragnarök Online, onde criou uma das possíveis obras-prima perdidas da música moderna: Pub (no original coreano, Sakaba), um jazz notadamente dixieland com vocais engraçadamente graciosos de Tada Aoi (a eterna seiyuu – ou dubladora, como queiram – de Ed em Cowboy Bebop), cuja letra bastardizada passeia por (que eu tenha conseguido contar) 10 idiomas, entre alemão, italiano, espanhol, inglês, japonês, francês, coreano, russo e mais uns 3 que não consigo identificar. Justamente porque essa é a música do pub, um lugar onde o mundo se encontra, entendem o conceito? E musicalmente viajante, acima de tudo. Brilhante. E nas parcerias, ela surpreende sempre com boas escolhas vocais, de diversas frentes. Em Cowboy Bebop, a emocionante Rain com Steve Conte; Em 23ji no Ongaku, encabeça parceria (já haviam trabalhado juntas, mas não como um duo) com uma das queridinhas do J-pop, Maaya Sakamoto (que não é queridinha à toa: ótima voz e excelente violonista clássica por formação), e inusitada pois passeia por bossas, rocks e até drum ‘n bass (a incrível Pepper Strech); em Wolf’s Rain, o encerramento da segunda temporada que surpreendeu muitos fãs brasileiros, Coração Selvagem, um samba interpretado pela descomunal Joyce; E a queridinha de Yoko, Gabriela Robin, sempre presente nas canções mais líricas com sua linda voz de soprano clássica… Mas surpresa: Gabriela Robin é um pseudônimo da própria Yoko, embora nunca admitido. Alguma dúvida da genialidade?

Ah, eu sei que só conheço tudo isso porque sou uma geek, uma otome que viu Cowboy Bebop pela primeira vez no curso de japonês e se apaixonou de cara pela trilha até mais do que pela trama. Mas e daí? Este é o tal além: ~e daí, p****?~. Temos um histórico de uma eternidade da prática musical, desde a primeira utilização do som para comunicação até os dias atuais. Tentando resumir para caber, temos pelo menos 3500 anos de prática musical dotada de conceito (tentando puxar pela memória sem consultar base alguma como se eu mesma tivesse 3500 anos. Pra que criar nichos? Freud explicaria: a necessidade humana de sentir-se acolhida e aceita por seus semelhantes, mais do que uma necessidade interna, é uma necessidade apoiada nos aspectos culturais. Ótimo, criamos nicho porque precisamos nos sentir à vontade para discutir com pessoas que nos entendam e criar propriedade para prevalecer sobre determinadas opiniões de outros grupos. Ainda mais resumido: criamos nichos porque precisamos nos garantir. Para quem? Para que? Para rotular. Para poder criar um entre dois lados possíveis porque só percebemos duas dimensões de cada vez, a bem da verdade. Temos limitações, logo criamos limites. Mas a beleza da boa música, pelo menos na minha irrisória opinião e independente de gênero, sempre foi aquela advinda da percepção de diversos elementos em profundidades e para diferentes regiões e sentidos, a tal psicoacústica. Talvez por isso eu não sabia rotular minhas músicas e isso é uma dor para separar e organizar coisas nas horas precisas: não vejo como achar Technasia inferior a Mozart, ou a Cohen (o Leonard, poderia ser o Renato também, why not?), ou a Tom Zé, ou ELP, coisa que já defendi antes, sob ofensas; novidade alguma se ocorrer novamente. O que falar sobre Seatbelts e Yoko tinha a ver com essa parte? Um trabalho que parte de um completo desprendimento desta estrutura hierárquica musical, e de nichos, e de público. Um trabalho que atende ao erudito, ao moderno, ao otaku e à otome e a seus pais que “têm que aturar”, coitados, “assuntos de joguinho, musiquinhas japonesas” e outras coisas que não eram vendidas em banca em suas épocas. Trabalho o qual não tem culpa de limitações culturais, sociais, pessoais. Embarca, navega, aporta, integra. De concertos e ensaios clássicos a pistas de dança – os remixes foram extraídos do álbum complementar Music for Freelance, da extensa trilha sonora de Cowboy Bebop, que além de Ian O’Brien e 4 Hero ainda conta com Vadim, Mr. Scruff, Luke Vibert, Ian Pooley, Fila Brazilia e DMX Krew. Só nomezinho pequeno né, busque um selo de fundo de quintal chamado Ninja Tune se precisar de mais referência.

Pois, concluindo (não muito) brevemente: antes que se acuse o texto de ser pessoal, admito logo. Talvez ninguém tenha mesmo se acometido de nada e eu só tenha usado como gancho para escrever sobre música que gosto. Porque gosto da musicista e, para mim, seria interessantíssimo mostrar a pluralidade que ela atinge, mas antes, porque gosto da música. Porque não me conformo mais com esta coisa de nicho e gasto meu latim esbravejando por aí. Porque houseiros estão mais certos do que eletreiros e dutchzeiros e é estranho ser fullonzeiro também. Porque indie é a voga e a vanguarda que se desprende dessa coisa ultraconservadora do jazz e da música de vernisàge. Porque música de jogo só pode ser engraçadinha e divertidinha e foi-se o tempo em que tinha que compor para 8-bit e isso é passado e nada tem a ver com a e-music atual destes alienados que usam cabeça de rato. Justamente porque este cara é um fanfarrão da cultura pop que é puro marketing igual aquele menino emo esquisito, estas escórias da autarquia da boa música eletrônica surgida no âmago da cultura britânica e leste-européia. Porque isso e aquilo. Mas por que?

Mais uma vez recorro à memória de como comecei a produzir e gostar de verdade de música: tarde de sábado, Terremoto, Marky toca VIP de Sambassim. Penso em sampling, ainda do baixo da minha ignorância, olho pra mãe, que diz “Não conheço essa voz, não lembra Marisa? Que legal, não sabia que esse drum ‘n bass tinha isso, levadinha de samba.”. É, tinha. Por que? Quem faz, quem canta, de onde vem, quem fez isso antes, e antes? Assim. Sem pandeiro ou tamborim. Não sou muita coisa desde então, gosto mais de perguntar do que de afirmar. Fazendo o pouco que posso, mas será que pouco? Sempre questionando, respostas são implícitas, e não me importa o que a cientologia diga sobre isso. Capaz que seja a afirmação, a convicção, que faça com que pessoas se tornem referência. Capaz que seja a dúvida que nos faça experimentar sempre, sem chegar a conclusão alguma. Como este texto.

Em tempo: Falando em e-music convergindo com a música erudita, Basement Jaxx Vs Metropole Orkest. Vocês nunca mais ouvirão Do your thing ou Where’s your head at da mesma forma. Procurem.

CartilhAA: Danza Kuduro que não é kuduro gente!

Distante do quase um ano que a música já acontece por aí, malhada pelos menos ortodoxos, pivô de discussões fervorosas sobre méritos e deméritos de determinado DJ por tocá-la, e chegando ao ápice neste instante de ter uma versão em português como tema de novela, a única coisa que sempre me indignou com relação a “Danza Kuduro”, este inegável hit recente de Don Omar, mas única mesmo: isso não é kuduro gente.

E quem sofre como movimento é o próprio kuduro, outrora também renegado lá em outros carnavais (para ser mais exata, o de 2009, quando o kuduro foi a febre do carnaval de Salvador e por coincidência eu gastava meus dias por lá), quando comparado ao renegado e praguejado funk carioca (ao qual poderia aqui sair em defesa, mas não é o tópico, e tem gente melhor saindo em defesa dele). Mas atire a primeira pedra nos kuduristas o houseiro que nunca curtiu a válida mistura sonora de Gregor Salto e quem hoje não se rende ao também pioneiro Buraka Som Sistema. Estes nomes, mais os de DJ Gregory e Puto Prata, são responsáveis pela pluralização do kuduro na europa e sua inserção macia no 4/4 da house music. Um ritmo gostoso, minimalista, que verte com o techno e o experimenta sobre os regionalismos da cultura africana dos países de língua portuguesa. Som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica… não, pera, isso é outra coisa.

A saber: Danza Kuduro que de kuduro não tem nada é, de fato, uma funana (e não confundam com o termo pejorativo funhanha que de fato deriva de uma adaptação ritmica deste ritmo, também modinha em outros carnavais, assim como a tarraxinha, que pasmem – também é uma derivação de outro ritmo amplamente praticado naqueles países). Sendo uma funana, que é um movimento afim do kuduro como citado, é até fácil relacionar, porém não é a mesma coisa. Funana é um som mais “festivo”, com uma rítmica derivada do kuduro mas já buscando uma quantização de 4/4, digamos, “easy listening”. Kuduro, de verdade, é hard listening e garanto que tem “über crítico musical eletrônico *e DJ*” por aí que não vira aquilo. 4/7, beat intrincado, frases minimalistas, 135 BPM em média. Too much hardstyle for you.

Mas ironias à parte, me cativa o kuduro mesmo, a coisa “bué fixe”, a sonoridade moleque. Não é mesmo difícil tratá-lo nas mesmas proporções do funk carioca: com suas letras caricatas, com a dança marota e batalhas cheia de malandragens como nos passinhos. Com sua proposta de investir mais na rítmica e nos médios e agudos como forma de vibração ao invés dos graves já tradicionalizados e hoje supervalorizados na dance music em geral – hoje o mundo esquece dos graves que há nas médias frequências: se não bater abaixo dos 300hz não é dance music, não é bass, esquecendo-se um legado de drum ‘n bass de faixas como Trust Me do Roni Size ou Take me Away do EZ Rollers que submeteram ao gênero sem utilizarem-se de subs. Na verdade, um legado que vem bem antes disso, com o garage, com o bass delicado e não menos poderoso de LFO ou Slam no techno. Proposta que, esquecido este passado, remete como se fosse apenas uma característica da música eletrônica africana (note-se também através do new wave shaangaan, vertente emergente e advinda deste ritmo africano que já vem despontando em alguns grandes festivais europeus desde o final de 2011). Com a ideia de transformar música em passatempo e ter como sucesso uma consequência e não uma causa, outra amnésia dos produtores modernos.

A história mostra desde sempre que, na música, o desafinado de agora é o João Gilberto de amanhã, pois, quem sou eu para julgar? Prefiro eu sair aqui em defesa de normais nada, nikes, máquinas do inferno, e tantos outros desafinados da e-music “de terceiro mundo”. Que pagam por uma generalização, ou pura falta de informação. Com a qual não pretendo contribuir.

CartilhAA: Aviso aos pais

Aos pais

Escrever a CartilhAA é uma proposta desafiadora para nós. Muito além de uma proposta pedagógica, que seria pretensiosa haja visto que há material vasto escrito por conceituados professores e doutores da área, é necessário oferecer aos alunos que iniciam nesta longa jornada de aprendizado e conhecimento uma carta de opções e possibilidades a serem exploradas. Ainda tão importante quanto o objetivo didático é oferecer a vocês, pais também no papel de educadores desta nova geração de valores e talentos, um complemento à experiência adquirida através dos anos, de um legado cultural. Adquirido também nas escolas, em ambientes familiares, no convívio com a sociedade e a cultura dos mercados de trabalho, local destes nossos queridos filhos, alunos, protegidos. É importante para nós que trabalhemos em conjunto na construção de um futuro mais brilhante.

Vale ressaltar, talvez redundantemente, que em nenhum momento a pretensão deste compêndio educacional é interferir em seus conhecimentos, valores, princípios éticos, étnicos, filosóficos. Não deve ser a intenção de um material de estudos impor uma única forma de pensar, ou inferir qualquer tipo de preconceito ou conduta estabelecida por lógica ou qualquer intuito premeditado. A filosofia pedagógica mantida aqui é misturar e trocar valores e experiências culturas advindas de mestres, alunos e seus respectivos nichos. Não se deve estranhar a diversidade cá empregada, e desde já nos desculpamos se em algum momento algum exemplo acabar ferindo algum aspecto cultural ou popular. Tomamos o maior cuidado para que isso não ocorra em momento algum, mas possuímos canais e mentes abertas para receber críticas e sugestões, com justiça à intenção desta.

Neste prefácio, incluímos um hyperlink de material multimídia (em http://snd.sc/xdrT0n) que traduz nossa proposta auditivamente, com o único intuito de exemplificar um de seus diversos usos, jamais devendo ser avaliada como demonstração definitiva. Trabalhando a proposta de um meio em que possamos praticar nossa cultura sem abstinências, sem rechaças, sem conflitos. Criar novos meios de ensinar, colaborar, inovar a partir de diversas origens. Sentimo-nos honrados em escrever a CartilhAA para gerações futuras e trabalhar tão próxima às gerações presentes e passadas a ponto de jamais perder a memória, e o respeito. Entre tantas outras cartilhas, entre tantos métodos convencionais, ter a satisfação de ocupar lugar na lista de materiais a pesquisar e utilizar para reinventar ideias e prover base para o futuro através de raízes tão plurais e não-ortodoxas nos agracia. Desde já, agradecemos por caminharmos juntos nessa jornada.

Atenciosamente,
O corpo docente.

http://w.soundcloud.com/player/?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F38015339&auto_play=true&show_artwork=true&color=5dff09

CartilhAA : Explorando o Studio One 2: Opção à “escola” do Fruit Loops?

Se eu disser que esta nova coluna do REMIXA assinada pela dj e produtora M.e-iko, veio de um simples e-mail, quem vai acreditar? Quem conhece a M.e-iko sabe que, quando o assunto é software ou novos equipamentos, uma simples pergunta vira um artigo incrível cheio de conhecimento e técnica!

Bem vindo ao CartilhAA by Nanda M.e-iko 

Por Fernanda ”M.e-iko” Almeida

Há umas semanas, Aline havia me mandando e-mail com link para a versão demo do Studio One, da Presonus (http://studioone.presonus.com/demo-request/). À primeira vista, o que me chamou atenção foi a variedade de conceitos e elementos que lembravam às outras suítes de áudio digital famosas, com uma aparência firme, fazendo “cara de sério” mas buscando uma certa simplicidade. A dúvida que surge daí, tendo em vista o ponto de quem se propõe a se iniciar e se aventurar pelo mundo da produção “inbox” era: seria o Studio One uma boa opção para iniciar?

Há sempre uma discussão em pauta. Muitos apreciam o Fruit Loops da Image-Line como o melhor DAW para se começar a produzir. Atualmente, há uma corrente que defende o Live, da Ableton, como uma opção de facilidade e praticidade. Ao ver o Studio One, mesmo antes de baixar, me deparei com um software que se propunha a ser prático, didático, e aceitei o desafio de avaliá-lo como uma opção diante daqueles, mais conhecidos e aclamados, e daí saiu este artigo (longo…). Fiz uma avaliação bem técnica mesmo, pra não comprar gato por lebre, fiz questão de muita didática. Vou deixar as impressões gerais e pessoais para o final, e procurei comparar as funcionalidades com aquelas encontradas nos outros DAW, com a intenção de proporcionar algo que é vital para quem quer produzir, escolha. Conhecer bem o que precisa e o que deseja encontrar em um software facilita sua vida, e nossos ouvidos agradecem.

Aos iniciantes: não se preocupem com os termos, procurei fazer um glossário para consulta ao final. Nada que o Google não pudesse ajudar, mas a proposta é ajudar a ter uma visão de produção, e não apenas criação (eis a diferença). Aos letrados: aceito críticas e correções, visto que tentei manter certos conceitos “homogêneos”, mas tecnicamente homogêneo pode não ser totalmente acurado, afinal. Em tempo: não há nenhuma intenção comercial no artigo, mas acredito que antes de chegar ao fim vocês vão perceber que é um review bem pessoal.

Dito isso, vamos analisar. Separei por aspectos que acredito que deva-se considerar ao construir a base de trabalho. O resto é gosto, pesquisa e muito trabalho.

GUI e aplicação: Deu pra ver que a Presonus fez um trabalho “geek” na interface de usuário. Não reconheci e nem fui a fundo pra saber qual framework usaram (do baixo de minha ignorância como analista, parece Java Rich Client / Glassfish), mas ele é todo verboso e informativo, prato cheio pra quem gosta de saber o que o programa está realmente fazendo. Musicalmente falando? Desnecessário. Mas pra quem quer entender a engine e até talvez criar alguma interação com o programa, ele dá uma abertura que ainda não vi outro DAW permitir. O tamanho do software é bem atraente também, é muito menor que qualquer outro que já instalei, mas a seção de VSTs explica o motivo. Sobre consumo de CPU, que no site da Presonus eles enfatizam bem sobre as qualidades de desempenho, não vi algo super especial, perde para o FL, ganha do resto. Porém, testei a versão 32-bit, o que significa que a diferença pode ser muito mais visível na versão 64-bit, que segundo release da empresa, trabalha com uma espécie de “floating point” que flexiona quando se deve exigir processamento 64-bit e quando as tarefas podem usar apenas um endereçamento 32-bit. É uma tecnologia vista comumente em aplicações corporativas, para os mais geeks (como eu) é algo que salta aos olhos e denota uma preocupação bacana com o trabalho do software em si.

Área de trabalho: Quem já teve a oportunidade de testar outros DAW percebe que o Studio One é uma verdadeira salada de frutas logo pelo print no site. Daí você vai usar, e vê que é mesmo. A playlist e criação de pistas é completamente ripada do Cubase, até as opções do menu de criação são as mesmas. O mixer, a princípio me lembrava mais FL, mas a maneira de trabalhar com ele é muito idêntica ao Logic. O grid, para inserção de notas, é chupado do Ableton Live, assim como o browser de instrumentos e efeitos (leia-se como vantagem, já que o grid do Live é, de fato, super intuitivo e possui boa usabilidade). Aí, as automações são um misto de Cubase e FL: as pistas são agrupadas sob o canal a ser automatizado, como no primeiro, mas a distribuição gráfica é idêntica ao segundo. Tudo isso cria um método bastante único pra quem começa por ele, mas pra quem já lidou com os outros, é confuso, e algumas coisas fazem mesmo muita falta. Pra mim então, que uso Cubase e vejo que o Studio imita muito do seu método de trabalho, fazem falta coisas como os MIDI inserts e automações da master track, mas acho que o pecado principal, mesmo, é a falta de ativação de um teclado virtual para inserir notas pelas teclas do PC, fora um plug-in para trabalhar patterns, especialmente útil para drums. Mas ainda assim é uma proposta das mais agradáveis.

Workflow: Em muitos aspectos a mixagem é tão ou mais simples do que no FL. Uma das coisas irritantes do FL pra muita gente que está começando a trabalhar sério é que você precisa atribuir cada canal de instrumento a um canal de mixer manualmente, coisa que tem suas vantagens quando se aprende a dominar a mixagem, mas pra quem está aprendendo a mixar inbox talvez seja “educativo demais”. Para a Presonus, demais não é bom. A atribuição é automática, e a criação de subcanais de VST (algo especialmente útil pra quem usa drum machines como o Battery, Rebirth, ADM) é mera questão de clicar no [CH], na janela de instrumentos, que é outra sacada interessante de interface “made for geeks”. Em uma única janela, abas separam cada instrumento utilizado na track, facilitando o acesso, principalmente para criar encadeamento entre buses (que são habiltados com facilidade no mixer). Uma das boas coisas que o Studio One pega do Live é a adaptação automática de um sample para o BPM da master track, bom pra mashups e economiza muito tempo de trabalho com warps (eu disse economiza, e não elimina, mas quem já usou o Live sabe disso). Daí, todo o resto, como quantização do grid, processamento de áudio e facilidades fazem realmente pensar que o idealizador do DAW era engenheiro da Steinberg ou algum fã descontente do Cubase. Algo que mesmo sendo interessante, tenho que admitir, não traz muitas facilidades, embora muito bem organizado (e no Studio One, bem mais enxuto).

VSTs e plug-ins: Não gostei muito dos plug-ins nativos, falta resposta, em especial do equalizador e do compressor (que não é ruim, mas requer paciência para trabalhar em sidechain, pelo menos pra quem não acostumou, e estamos falando para iniciantes). Falta variedade também. O limiter, em compensação, tem uma resposta ótima. O Mixtool parece ter sido feito pra atrair os usuários do FL, oferece as mesmas opções que você encontra no painel de canal dele. O Analog delay é um dos plug-ins nativos mais legais que já vi, é um delay com variação de pitch e LFO que cria ótimos efeitos de stutter e stretching usando direito, e ainda assim é prático o suficiente. Groove delay é um tape delay que me lembrou a facilidade do Ricochet da AudioDamage. O Room reverb também é bem razoável. Senti falta de um filtro de bypass/pole normal, embora o Autofilter seja bacana (filtro com LFO bem legal, até dá pra adaptar bem, mas não é o que eu chamaria de easy-to-use, o do Live mesmo é bem mais fácil de transpor). Aí mais uma vez tem fan service de Cubase com o X-trem, que o Chopper cuspido e escarrado. O Dual Pan já é fan service do FL de novo, o Stereo Enhancer. O resto é o básico presente em qualquer DAW.

Sobre os instrumentos, não sei se só na demo, mas achei que falta uma variedade de instrumentos pra trabalhar, assim, “fora da caixa”. Ainda assim, os que existem me chamam atenção. Mojito é um synth baseado em processamento analógico, com um oscilador, prático e achei uma delícia pra trabalhar. Presence é um sampler que lembra muito o Kontact da NI, e tem bons presets de drums e instrumentos acústicos para começar a trabalhar. A drum machine do Studio One é o Impact, mais uma vez lembrando muito o Groove Agent do Cubase (e eu não tô exagerando por conhecer bem o Cubase, é tudo muito ripado mesmo!), mas tem praticidades de uso que o tornam também um bom sampler pra trabalhar vozes e cuttings, inclusive me relembrando das facilidades do Slicex do FL. E o Sample One é outro sampler, bom pra quem quer criar seus próprios timbres através de samples, me lembra muito o NN-XT encontrado no Reason (ou seria o Halion?), esse é pra quem gosta de botar a mão na massa. E só.

Mixagem, masterização e bouncing: Não pude testar um bounce pra valer pois instalei no notebook (é um Celeron 1.2GHz, compreensível, não?) e isso significa que o processador mal aguentou trabalhar o mínimo possível com 8 canais. Mas neste aspecto, diria que o fluxo do mixer e da master lembram muito mesmo a maneira de trabalhar do Logic, o que de certo modo é ótimo, pois neste aspecto Logic e Cubase só perdem mesmo para o Pro Tools em toda a sua riqueza e foco em qualidade de processamento. A criação de inserts e sends é prática, no caso dos inserts há muitos presets de mixagem (que não recomendo muito, visto o que falei sobre os plug-ins), e os sends são fáceis de entender, inclusive provendo capacidade de ajustar o balanço do input. O que não é tão fácil é o sidechaining, pois não basta jogar o volume do send, mas também ajustar o volume e balanço do sidechain no plug-in escolhido, o que é imprático. O workflow do mixer é gostoso, bastante modular, é fácil mover efeitos de canal a canal, e como também usa abas (laterais, no caso), é fácil de ver, pouco poluente (no modo reduzido, também pode-se usar o mixer em tela cheia como no Logic, a diferença é nenhuma). E assim como sempre, o trabalho com buses em muito é idêntico ao Cubase: cria-se um bus (geral ou para a track, que seria um submix no FL) e daí se pode fazer send automaticamente.

Embora não tenha testado a qualidade do bounce, a janela de export é a mais amigável possível, e une o melhor dos mundos: permite que você exporte apenas o mix (bypass master effects), processamento em tempo real como os sempre referenciados Logic e Cubase, e bounce por marcação com opção de remainder, como no FL. E assim como o FL, export de stems é simples (até mais que o próprio FL), permitindo que você exporte cada track em separado ou todas elas usando o material cru da track ou já mixado. E aí o pulo do gato para os fãs de praticidade: export direto para a conta do Soundcloud. Mais uma vez, trabalho de geek.

Impressão geral: Não me deu trabalho algum começar uma base de uma track através dele, e acredito que mesmo para iniciantes em produção não seja um monstro de sete cabeças. A salada de frutas, no final, mostra que houve algum empenho em criar uma mistura de praticidade, bom workflow e boas práticas de engenharia, sem requerer demais. Se você não depende de artifícios de MIDI para criar música, o processo é simples e dinâmico. Contudo acho muito difícil criar uma track de qualidade dependendo apenas de VSTs internos, o que descompensa o tamanho do software e te obriga a buscar outras soluções se quiser realmente terminar uma faixa com boa sonorização, coisa que, com algum esforço, você conseguiria em qualquer outro DAW, devido à variedade de ferramentas padrão.

Impressão pessoal: Talvez por já ter experimentado todos os DAW “de ponta”, seja difícil pra mim ter afinidade, e DAW é afinidade. E até por trabalhar com o Cubase, é difícil não ver um software que parece copiar *muito* ao da Steinberg e não achar muito melhor ir direto para o original, que te dá uma completude muito maior. Mas se a comparação foi feita com base a criar um comparativo para DAW “de entrada”, uma “escola” para entender criação e engenharia, acho justo dizer que, do jeito dele, o Studio One é sim uma boa escola, para quem não quer muita enrolação ou quebrar a cabeça. A terminologia em especial é muito acurada, quando comparada ao FL, que tem uma terminologia que acho muito errada em comparação com a didática geral, artigos e livros de produção e engenharia. Mas eu acho que a dita salada prejudica muito a estadia futura no programa, ele é definitivamente um programa “de entrada”. Você usa, se acostuma a gostar de algumas coisas, ou de outras. Percebe que precisa de algo mais, e vai para outro DAW que tenha estas características. Por isso mesmo ressaltei tanto as semelhanças com cada um, você aprende, se identifica e pensa “se no DAW tal é assim, eu vou passar a usá-lo porque tem isso e mais outras coisas”. Por isso ainda acho o FL mais didático e mais fácil de começar, porque se você gostar, pode continuar a vida toda com ele, porém o workflow é todo baseado no Logic e no Cubase, logo, se você gostar de como ele se comporta, recomendo um dos dois, ou se gostar do método de criação, mas sentir falta de melhores ferramentas para agilizar, acaba indo para o Live. Onde vejo o mesmo defeito do Cubase para iniciantes em produção: na compreensão da engenharia. Se você já sabe bem os conceitos, é perfeito. Se você não sabe bem, o FL ensina muito melhor. Acho que vale utilizar a versão demo pra ver se acostuma. Se acostumar e achar que funciona pra você, perfeito. Se não se acostumar e gostar de alguma das características, já sabe exatamente o que procurar, e pra onde ir.

Glossário:

DAW – Digital Audio Workstation. Esse é o termo correto para qualquer suíte de trabalho de áudio digital.

GUI – Graphic User Interface. Interface gráfica, pronto, mas sabe como é né…

Playlist – Em DAW, é a área onde você inclui e edita notas e material de áudio de todas as tracks, porque isso difere da ideia de studio mixing.

VST – Virtual Studio Technology. Na verdade, VST seria qualquer pacote de ferramenta de processamento digital, seja efeito ou instrumento, mas no geral, para diferenciar de inserts, a maioria dos produtores se refere a VST apenas tratando de instrumentos, tratando VSTs de efeito como plug-in, por causa do conceito de insert/send.

Insert – Simplesmente seria o “jack” do canal de entrada de um processador de efeitos, se tratando de uma mesa. Sendo assim, são os slots para inserir efeitos em um canal de mixer.

Send – Seria o volume de saída de um canal para outro, fosse este um efeito ou outro canal de áudio. Existem basicamente três tipos de send: sidechain, bus/group send, e passive sending. O primeiro é um send de um canal de áudio para um efeito, encadeando o áudio e gerando uma terceira saída cujo resultado geralmente é um ducking (porque tem esse nome eu não sei, mas é a interpolação de uma saída em outra baseada em picos de sinal). O segundo é um send de um ou vários canais para um canal auxiliar, processando a saída de todos em conjunto, mas sem ducking ou algum tipo de separação, o controle de saída do canal auxiliar depende apenas da quantidade de volume enviada por cada canal de áudio. A terceira é um send de um canal a outro de áudio, sem influência de efeitos. O canal de send é influenciado apenas aos próprios inserts, é apenas para enviar sinal. O único métido de controle seria usar um peak controller para criar um gating ou ducking no canal que recebe, criando uma outra saída por soma,  mas o canal que envia continua com sua saída de áudio normal.

MIDI – Music Instrument Device Interface. Qualquer dispositivo que envie comandos e sinais digitais diretamente para ser obedecido por um VST. Controladoras, ou mesmo roteamento interno.

Bounce – Sempre há dúvida do porque mix, master e bounce. Mix é o material resultante da renderização de todas as faixas do mixer, sem necessariamente passar pela master. Um bounce, obrigatoriamente, passa o material do mixer através da saída estéreo da master da mesa, seja processamento analógico ou digital, mas não quer necessariamente dizer que aquela seja a master da faixa. É, e não é. É a saída da master, em estéreo, processada através dos efeitos da master, mas já em um único arquivo estéreo. Normalmente, uma master no sentido lato seria feita depois, por um engenheiro de áudio, com o bounce de cada lado da mix, processando efeitos e fazendo adequadamente o summing dos canais, normalizando, enfim. Se você faz isso no DAW, com um summing analógico, e usando a master track para normalizar e processar, então pode chamar a saída de master. Mas o processo em si é um bounce.

Stems – Cada pista de aúdio, mixada, e bounceada separadamente, sem nenhum send. É a raíz da faixa.

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Nanda M.e-iko agora é do Remixa e escreve aqui quando dá na telha.

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