CartilhAA: The Seatbelts, convergência cultural, cultura do nicho segundo Sigmund Freud e o que você tem a ver com tudo isso

No meu texto inaugural (só que ao contrário), em meio à diversão de escrever uma carta pedagógica e tentar fazer melhor do que isso e botar em prática, uma das coisas que procurei trabalhar foi uma ideia de convergência. Não é um termo novo e nem “in”, diria ser 2006 demais, mas resumindo a pauta toda, esta é a ideia. Em meio a letras, e faixas, e notas, periga alguém ter notado que me repito em um momento, com um projeto ilustremente desconhecido de boa parte do cenário eletrônico – Por não ser, mas por outro lado, por uma culpa endêmica em nossa cultura musical: os nichos. E ainda por outro lado (pois, nos habituamos também a achar que tudo se resume a um lado e outro, esquerda e direita, dentro e fora, certo e errado; quando a vida é cheia de tríades e polígonos e sefirotes), tal projeto é tão incluso em tantas variações, no complexo que por simplicidade chamamos de música, que seria injusto referir-se como “experimental”, ou “neoclássico”, ou “contemporary nu jazz/classic”, ou qualquer rótulo que o iTunes pudesse colocar, visto que mecanizamos a música (digitalizar é diferente de mecanizar, renderia um outro ensaio, só que não). Bom, vê-se minha suspicção para falar sobre The Seatbelts e sua headmaster, a virtuosa maestrina/compositora/pianista Yoko Kanno, uma das referências máximas pessoais quando se trata de musicalidade. Mas gostaria de falar sobre algo além.

Antes, e antes de mais nada, quem diabos é Yoko Kanno né? A Wikipedia responderia que é uma compositora de 49 anos conhecida principalmente pelo trabalho com trilhas para animes e séries, nascida na província de Miyagi, no Japão. Too fukken obvious que com esse nome ela seja japonesa, então deixe-me trilhar por mim mesma. Yoko não é uma simples sound composer: ela é uma das mais brilhantes e agraciadas sound composers da história da animação moderna, além de possuir reconhecimento no meio erudito por seus trabalhos como concertista. Não bastante, reúne sob o nome The Seatbelts uma extensa gama de composições realmente ecléticas, utilizadas em diversas mídias ao longo dos anos, tendo trabalhado não só o clássico, mas o J-pop e muito além, a world music como um todo. Conhecidíssima por singularidades como a constante bastardização de suas canções (utilizando termos únicos de diversas línguas para criar sonoridade e contextos inéditos, tanto líricos quanto musicais) e pelo despudor de utilizar-se de elementos de diversos estilos e gêneros, Yoko é tida constantemente no meio da game music e da música pop japonesa como um dos maiores gênios vivos da atualidade. São inúmeros seus trabalhos, sendo mais frequentemente reconhecida por trabalhos em animações mais “mainstream”, principalmente Vision of Escaflowne, Cowboy Bebop e Wolf’s Rain. Também contribuiu com o clássico dos games Romance of the Three Kingdoms, e recentemente compôs uma trilha que literalmente salvou um jogo pífio, a da segunda versão do hit MMO Ragnarök Online, onde criou uma das possíveis obras-prima perdidas da música moderna: Pub (no original coreano, Sakaba), um jazz notadamente dixieland com vocais engraçadamente graciosos de Tada Aoi (a eterna seiyuu – ou dubladora, como queiram – de Ed em Cowboy Bebop), cuja letra bastardizada passeia por (que eu tenha conseguido contar) 10 idiomas, entre alemão, italiano, espanhol, inglês, japonês, francês, coreano, russo e mais uns 3 que não consigo identificar. Justamente porque essa é a música do pub, um lugar onde o mundo se encontra, entendem o conceito? E musicalmente viajante, acima de tudo. Brilhante. E nas parcerias, ela surpreende sempre com boas escolhas vocais, de diversas frentes. Em Cowboy Bebop, a emocionante Rain com Steve Conte; Em 23ji no Ongaku, encabeça parceria (já haviam trabalhado juntas, mas não como um duo) com uma das queridinhas do J-pop, Maaya Sakamoto (que não é queridinha à toa: ótima voz e excelente violonista clássica por formação), e inusitada pois passeia por bossas, rocks e até drum ‘n bass (a incrível Pepper Strech); em Wolf’s Rain, o encerramento da segunda temporada que surpreendeu muitos fãs brasileiros, Coração Selvagem, um samba interpretado pela descomunal Joyce; E a queridinha de Yoko, Gabriela Robin, sempre presente nas canções mais líricas com sua linda voz de soprano clássica… Mas surpresa: Gabriela Robin é um pseudônimo da própria Yoko, embora nunca admitido. Alguma dúvida da genialidade?

Ah, eu sei que só conheço tudo isso porque sou uma geek, uma otome que viu Cowboy Bebop pela primeira vez no curso de japonês e se apaixonou de cara pela trilha até mais do que pela trama. Mas e daí? Este é o tal além: ~e daí, p****?~. Temos um histórico de uma eternidade da prática musical, desde a primeira utilização do som para comunicação até os dias atuais. Tentando resumir para caber, temos pelo menos 3500 anos de prática musical dotada de conceito (tentando puxar pela memória sem consultar base alguma como se eu mesma tivesse 3500 anos. Pra que criar nichos? Freud explicaria: a necessidade humana de sentir-se acolhida e aceita por seus semelhantes, mais do que uma necessidade interna, é uma necessidade apoiada nos aspectos culturais. Ótimo, criamos nicho porque precisamos nos sentir à vontade para discutir com pessoas que nos entendam e criar propriedade para prevalecer sobre determinadas opiniões de outros grupos. Ainda mais resumido: criamos nichos porque precisamos nos garantir. Para quem? Para que? Para rotular. Para poder criar um entre dois lados possíveis porque só percebemos duas dimensões de cada vez, a bem da verdade. Temos limitações, logo criamos limites. Mas a beleza da boa música, pelo menos na minha irrisória opinião e independente de gênero, sempre foi aquela advinda da percepção de diversos elementos em profundidades e para diferentes regiões e sentidos, a tal psicoacústica. Talvez por isso eu não sabia rotular minhas músicas e isso é uma dor para separar e organizar coisas nas horas precisas: não vejo como achar Technasia inferior a Mozart, ou a Cohen (o Leonard, poderia ser o Renato também, why not?), ou a Tom Zé, ou ELP, coisa que já defendi antes, sob ofensas; novidade alguma se ocorrer novamente. O que falar sobre Seatbelts e Yoko tinha a ver com essa parte? Um trabalho que parte de um completo desprendimento desta estrutura hierárquica musical, e de nichos, e de público. Um trabalho que atende ao erudito, ao moderno, ao otaku e à otome e a seus pais que “têm que aturar”, coitados, “assuntos de joguinho, musiquinhas japonesas” e outras coisas que não eram vendidas em banca em suas épocas. Trabalho o qual não tem culpa de limitações culturais, sociais, pessoais. Embarca, navega, aporta, integra. De concertos e ensaios clássicos a pistas de dança – os remixes foram extraídos do álbum complementar Music for Freelance, da extensa trilha sonora de Cowboy Bebop, que além de Ian O’Brien e 4 Hero ainda conta com Vadim, Mr. Scruff, Luke Vibert, Ian Pooley, Fila Brazilia e DMX Krew. Só nomezinho pequeno né, busque um selo de fundo de quintal chamado Ninja Tune se precisar de mais referência.

Pois, concluindo (não muito) brevemente: antes que se acuse o texto de ser pessoal, admito logo. Talvez ninguém tenha mesmo se acometido de nada e eu só tenha usado como gancho para escrever sobre música que gosto. Porque gosto da musicista e, para mim, seria interessantíssimo mostrar a pluralidade que ela atinge, mas antes, porque gosto da música. Porque não me conformo mais com esta coisa de nicho e gasto meu latim esbravejando por aí. Porque houseiros estão mais certos do que eletreiros e dutchzeiros e é estranho ser fullonzeiro também. Porque indie é a voga e a vanguarda que se desprende dessa coisa ultraconservadora do jazz e da música de vernisàge. Porque música de jogo só pode ser engraçadinha e divertidinha e foi-se o tempo em que tinha que compor para 8-bit e isso é passado e nada tem a ver com a e-music atual destes alienados que usam cabeça de rato. Justamente porque este cara é um fanfarrão da cultura pop que é puro marketing igual aquele menino emo esquisito, estas escórias da autarquia da boa música eletrônica surgida no âmago da cultura britânica e leste-européia. Porque isso e aquilo. Mas por que?

Mais uma vez recorro à memória de como comecei a produzir e gostar de verdade de música: tarde de sábado, Terremoto, Marky toca VIP de Sambassim. Penso em sampling, ainda do baixo da minha ignorância, olho pra mãe, que diz “Não conheço essa voz, não lembra Marisa? Que legal, não sabia que esse drum ‘n bass tinha isso, levadinha de samba.”. É, tinha. Por que? Quem faz, quem canta, de onde vem, quem fez isso antes, e antes? Assim. Sem pandeiro ou tamborim. Não sou muita coisa desde então, gosto mais de perguntar do que de afirmar. Fazendo o pouco que posso, mas será que pouco? Sempre questionando, respostas são implícitas, e não me importa o que a cientologia diga sobre isso. Capaz que seja a afirmação, a convicção, que faça com que pessoas se tornem referência. Capaz que seja a dúvida que nos faça experimentar sempre, sem chegar a conclusão alguma. Como este texto.

Em tempo: Falando em e-music convergindo com a música erudita, Basement Jaxx Vs Metropole Orkest. Vocês nunca mais ouvirão Do your thing ou Where’s your head at da mesma forma. Procurem.

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